Filme: Relatos Selvagens
Até onde somos capazes de controlar a raiva, o egoísmo e o desejo de vingança quando nos sentimos injustiçados?
Dirigido por Damián Szifron, Relatos Selvagens é uma coletânea de seis histórias independentes que combinam violência, humor e suspense. Com abordagens que exploram dimensões sombrias do comportamento humano diante da frustração, do conflito e da injustiça, somos surpreendidos pelas contradições que permeiam nossas ações. Ao mesmo tempo em que reconhecemos e defendemos a necessidade da convivência ética e pacífica, também somos capazes de agir de maneira deliberadamente egoísta ou instintiva em contextos nos quais nos sentimos ameaçados.
Quando, por qualquer motivo, não correspondemos às expectativas alheias, corremos o risco de ser criticados, rejeitados e até humilhados. É bem verdade que as regras sociais são importantes na medida em que possibilitam a convivência social. Entretanto, estabelecem padrões que, em determinadas circunstâncias, podem restringir a criatividade e a livre expressão da nossa individualidade. Freud, em O mal-estar na civilização (1930), reflete sobre a constante tensão entre a necessidade de renunciar à satisfação de determinados impulsos e as exigências da vida civilizada. Essa tensão pode contribuir para o sofrimento e para conflitos interiores e, em determinadas circunstâncias, favorecer respostas extremas.
Certamente, as pessoas que sofrem com nossas ações egoístas podem reagir de maneiras imprevisíveis, inclusive na busca por vingança. Muitas vezes, por ganância ou sede de poder, tomamos decisões sem considerar os impactos de nossos atos na vida dos outros. Pode estabelecer-se aí um conflito de interesses que alimenta o ressentimento e a vingança, em que um se acha no direito de prejudicar, enquanto o outro acredita que tem o direito de “dar o troco”. Essa dinâmica se relaciona à ideia de ressentimento em Nietzsche. A ofensa pode alimentar a indignação e o desejo de vingança, de modo que o revide passa a ser percebido como uma reparação legítima.
Um detalhe que também chama atenção: não é incomum que tragédias aconteçam por motivos banais. Provocações, por menores que sejam, podem desencadear situações horríveis. E, quando estamos prestes a fazer algo indevido, somos hábeis em criar justificativas para relativizar o peso de nossas ações sobre a consciência. Criamos desculpas na tentativa de reformular nossa perspectiva sobre o ato e, somente quando confrontados com suas consequências ou com a reprovação alheia é que percebemos quão distantes estamos dos princípios que afirmamos defender.
Do encontro entre a necessidade e a esperteza podem surgir os acordos mais absurdos. É justamente nos momentos de maior fragilidade que estamos sujeitos a negociar nossa honra e nossa dignidade. Como percebemos na história humana, a promessa de ganhos extraordinários pode ser tão sedutora que, em poucos instantes, uma trajetória inteiramente orientada por determinados princípios pode ruir irreparavelmente.
Mas não se engane. O filme é construído de maneira tal que é difícil não se identificar com um dos lados. Somos envolvidos por uma mistura de sentimentos divergentes a cada narrativa. Um personagem pode despertar em nós afeição e rejeição ao mesmo tempo. E por quê? Talvez isso signifique que o filme, mais do que mero entretenimento, funcione como um espelho que reflete nossas próprias contradições: somos indivíduos que, por um lado, procuram dar o melhor de si, buscando construir uma sociedade mais justa e fraterna, mas, por outro, estão prontamente dispostos a negociar com a própria consciência quando isso lhes parece conveniente ou quando seus interesses parecem estar em jogo.
Por fim, fica a seguinte reflexão no campo da ética: nossa facilidade em relativizar princípios e valores decorre de uma tendência a colocar os próprios interesses acima dos princípios morais ou revela o limite de nossas convenções sociais diante da complexidade das relações humanas?
By Ednaldo Teixeira
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Ano de lançamento: 2014
Disponível no YouTube
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