Pitágoras de Samos: A Fascinante Cosmologia Numérica
Você sabia que os pitagóricos diziam que a Terra se movia e que o universo tocava uma melodia invisível?
A correta compreensão da filosofia cosmológica do pitagorismo antigo passa pela percepção de que o número integra a geometria, a música e aspectos religiosos e simbólicos em uma espécie de princípio universal unificador: “tudo é número”. Essa é uma interpretação moderna da concepção pitagórica que apresenta as relações numéricas como fundamentais para revelar proporções, estabelecer limites e tornar inteligível a estrutura do cosmos.
A Tetraktys, formada pela sequência numérica 1, 2, 3 e 4, expressa simbolicamente essa concepção. O número 10 resulta da soma desses números e ocupa posição importante na tradição pitagórica. Nessa perspectiva, essa sequência numérica relaciona-se às proporções dos principais intervalos musicais e à ideia de que as relações numéricas expressam a ordem do cosmos. A geometria, a aritmética e a música participam do mesmo princípio de proporção.

Sob a ótica da filosofia pitagórica, é importante observar que os números não eram concebidos de forma abstrata, como são na interpretação moderna. Segundo uma crítica de Aristóteles, os pitagóricos concebiam os números como dotados de grandeza – tamanho, forma e ocupação de espaço. Essa concepção ajuda a compreender por que a geometria participa da estrutura do cosmos.
A escola pitagórica também trabalha com a ideia de ápeiron, porém de maneira distinta daquela apresentada por Anaximandro. Este último afirmava que tudo tem origem no princípio ilimitado ou indeterminado (ápeiron). Dito de outro modo: o universo ganha forma à medida que aquilo que se origina se diferencia do princípio originário.
Filolau de Crotona, um dos principais representantes do pitagorismo do século V a.C., afirma que esses dois princípios – o Limite e o Ilimitado – não seriam suficientes para construir o universo sem que houvesse uma relação harmônica entre eles. Essa possível imposição do Limite ao Ilimitado guarda relação com a Unidade, o Um, que, em essência, classifica-se como “parímpar” (quando somado aos pares, gera números ímpares; quando somado aos ímpares, gera números pares).
Esse processo resulta na diferenciação da unidade original em partes distintas, permitindo o surgimento das relações numéricas e do espaço geométrico. Aristóteles narra o fenômeno da seguinte forma: “O universo inala o vazio, que distingue as coisas. Pois o vazio é aquilo que separa e distingue coisas que são próximas umas às outras” (McKIRAHAN, 2013, p. 189). Assim, ao Ilimitado são impostos limites, num processo matemático e cósmico que estabelece a ordem e a harmonia do universo.
A cosmologia pitagórica inova ao propor, por meio do filósofo Filolau de Crotona (século V a.C.), que o Fogo Central, “casa de guarda de Zeus e lareira do universo”, e não a Terra, está no centro do cosmos. Em torno desse fogo sagrado orbitam os corpos celestes em movimento circular. Além disso, a Terra se move em torno do Fogo Central, contribuindo para a sucessão dos dias e das noites.
De acordo com a escola pitagórica, a estrutura cósmica se organiza a partir do centro. No centro, encontra-se o Fogo Central, seguido pela Contra-Terra, que não é visível para nós, pois está situada entre o Fogo Central e a Terra. Em seguida, encontra-se a nossa Terra, acompanhada pela Lua, pelo Sol, pelos cinco planetas conhecidos e, por último, pela esfera das estrelas fixas.
Outro aspecto importante da cosmologia pitagórica é que o movimento dos corpos celestes produz uma harmonia cujas proporções correspondem às relações musicais. Dada a grandeza de toda essa estrutura, deve ser produzido um som intenso durante o movimento dos astros. No entanto, não podemos ouvi-lo, pois ele nos acompanha desde o nascimento, como um ruído de fundo constante ao qual estamos habituados. Por isso, somos incapazes de percebê-lo conscientemente. A esse fenômeno, os pitagóricos denominaram “Harmonia das Esferas”.
Se o universo é feito de matemática e música, você conseguiria ouvir o som das estrelas se fizesse silêncio absoluto?
By Ednaldo Teixeira
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