Pitágoras de Samos: A Jornada da Alma
Você sabia que para Pitágoras o seu corpo é um túmulo para a alma? Descubra como os antigos gregos viam a reencarnação através da matemática, do silêncio e da harmonia com o Universo!
O pitagorismo, que apresenta importantes afinidades com o Orfismo, concebia a alma (psyché) como imortal. Em tradições órfico-pitagóricas, a alma estava temporariamente aprisionada ao corpo, em processo de purificação (kátharsis). Havia um trocadilho grego que ilustrava essa dinâmica, utilizando as duas palavras sôma-sêma (corpo-túmulo). O jogo de palavras sugeria que o corpo era uma espécie de prisão temporária da alma.
A doutrina da transmigração da alma, tradicionalmente designada por metempsicose (metempsychosis) e metensomatose (metensomátosis), descreve a passagem da alma de um corpo para outro. Possuindo grande relevância no pitagorismo, essa doutrina pressupunha a existência da alma antes de seu nascimento em um corpo físico, como participante da ordem divina do cosmos (kósmos).
Porfírio, proeminente filósofo neoplatônico do século III d.C., ao mencionar relatos biográficos de Dicearco (aluno de Aristóteles), escreveu sobre o tema: “Pois ele afirma que a alma é imortal; e então ela se transforma em outras espécies de animais… e que todas as coisas que vêm a ser vivas devem ser pensadas como semelhantes” (McKIRAHAN, 2013, p. 157).
A alma, distinta do corpo, poderia, após a morte física, reingressar na vida terrena em seu processo de purificação por meio de sucessivas transmigrações. De acordo com a tradição, depois de plenamente purificada, ela finalmente retornaria ao estado original, recuperando seus atributos de liberdade e pureza divina.
Xenófanes, outro filósofo pré-socrático, criticou em tom satírico a doutrina da transmigração das almas, narrando um célebre episódio relacionado a Pitágoras e sua doutrina: “Passou uma vez por um filhote que apanhava, diz a lenda, e com pena disse as seguintes palavras: Pare, não bata nele, pois é a alma de um homem, um amigo meu, a quem reconheço quando o ouço chorar” (McKIRAHAN, 2013, p. 157). Contrariamente ao que se pensa, não se pode afirmar que Pitágoras defendia um sistema de recompensas e punições de caráter moralista e judicioso, mas uma espécie de ordem natural que conduzia à progressiva purificação da alma. Assim, a qualidade da vida anterior passou a ser relacionada ao próximo destino corporal da alma.
Na tradição pitagórica, o modo de vida ascético visava assegurar um destino favorável para a alma ou, preferencialmente, libertá-la do ciclo de sucessivos renascimentos. Esse ideal incluía o exercício do silêncio, a disciplina moral, a música e a dedicação rigorosa à filosofia e à matemática como caminhos de purificação catártica. O principal veículo para esse estilo de vida era a contemplação da harmonia do cosmos. Presente em todos os seres vivos, a alma estabelece uma afinidade entre eles, refletindo uma grande harmonia cósmica.
Conectado à doutrina da transmigração, um certo tipo de vegetarianismo era praticado por boa parte dos pitagóricos. Afinal, com fundamento na doutrina da metempsicose, a alma de seus antepassados poderia ter renascido em outros animais. Havia, ainda, uma conhecida proibição do consumo de favas, cuja justificativa varia conforme as fontes antigas: efeitos físicos sobre o corpo e o sono; associações simbolicamente relacionadas à geração, à morte, ao Hades ou à própria forma do cosmos.
Se o seu corpo é apenas uma roupagem temporária, quem é você de verdade?
By Ednaldo Teixeira
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