Tales de Mileto: A Alma do Cosmos e a Política Contemporânea
Você sabia que o primeiro filósofo do Ocidente achava que até a água e os ímãs tinham alma?
Embora Aristóteles reconheça que Tales identificou a causa material das coisas, aponta uma limitação na filosofia do pré-socrático: não explica satisfatoriamente o princípio responsável pelo movimento e pela transformação da matéria – a causa eficiente.
Entretanto, o pensador milésio é o primeiro filósofo conhecido a abordar a alma no âmbito da investigação filosófica da physis. Em sua filosofia, a arché aquática possui uma psyché – princípio interno de movimento (kínesis) responsável pelas transformações na natureza. Assim, a água é viva, não gerada e eterna, fonte preexistente de tudo o que há. Sua natureza divina é reforçada pela autonomia do movimento, regendo o universo como um todo harmoniosamente interconectado. Se tudo procede da água, que é viva, tudo participa desse princípio vital e é pleno do divino.
Segundo Aristóteles, Tales atribuía alma ao ímã devido à sua força capaz de mover o ferro. Uma célebre afirmação lhe é atribuída: “todas as coisas estão repletas de deuses”. Ideia frequentemente interpretada por historiadores da filosofia como uma forma primitiva de hilozoísmo. Essa concepção rejeita a inércia da matéria, ao reconhecer um princípio ativo e motor intrínseco a ela. Cumpre esclarecer que os deuses mencionados podem não ser as figuras antropomórficas do panteão grego, nem os espíritos aprisionados na matéria, conforme o animismo mítico, mas as forças naturais e vivas que a animam.
Há, ainda, uma perspectiva contemporânea pouco explorada, dado o caráter naturalista proposto por Tales em sua arché, mas que não deve ser ignorada. Esta abordagem denota a relevância atemporal do seu pensamento filosófico. Em um estudo de Patrício Tierno publicado em 2017, a dinâmica cósmica constitui uma “exigência de vida biológica e vida grupal que se aproxima, com um semblante físico, a um princípio universal de unidade.” Nessa interpretação, a physis prefigura, portanto, a busca por uma ordem racional na natureza bem como nas relações sociais e políticas decorrentes das interações humanas. Tierno propõe que as leis que regem a natureza são aplicáveis no contexto da pólis em uma analogia entre a ordem natural e organização política, expressa na unidade do cosmos.
Ao propor a água como arché, Tales estabelece os primórdios do pensamento filosófico do Ocidente. Assim, ele desloca a explicação sobrenatural da natureza para a investigação de causas naturais. Entretanto, reconhece na própria ordem do cosmos um caráter divino e afirma que ela é passível de nossa investigação racional.
Por fim, o pensamento filosófico inaugurado por Tales é premissa básica para novas interpretações contemporâneas. A fluidez da água é utilizada como metáfora para o dinamismo da existência humana e a ordem cosmológica figura como princípio harmônico do convívio social.
Você acredita que, numa época tão polarizada como a nossa, é possível resgatar esse princípio de unidade universal?
By Ednaldo Teixeira
Comentários
Deixe seu comentário ou leia o que outros visitantes escreveram