Tales de Mileto: A Água Como Princípio de Tudo
Um comerciante da Antiguidade deixou de lado os mitos para inventar a razão e mudar o mundo para sempre.
Arché - a água
Tales, reconhecido pela tradição como o primeiro filósofo pré-socrático e fundador da Escola de Mileto, inaugurou uma nova maneira de investigar o universo. Não mais recorrendo à autoridade dos mitos como explicação dos fenômenos naturais, fundamenta sua investigação na busca de explicações racionais e na observação da natureza. Ele é tradicionalmente considerado como monista, isto é, um filósofo que buscava um único elemento natural que pudesse explicar a origem de tudo, apesar de toda a complexidade e variedade do cosmos. De acordo com a tradição filosófica, Tales e seu discípulo Anaximandro desenvolveram a investigação acerca da arché, o princípio fundamental de todas as coisas.
Baseado na tradição aristotélica, McKirahan, 2013, afirma que a pergunta norteadora da investigação do filósofo milésio é: “de que são feitas todas as coisas?” A partir desse questionamento o filósofo desenvolveu a tese de que a água é a arché, o elemento primordial que dá origem, sustenta e permanece como fundamento de tudo no universo. Ao dizer que as "sementes de todas as coisas têm uma natureza úmida", Aristóteles, na Metafísica, explica os fundamentos da cosmologia de Tales. Nesse contexto, compreende-se que a substância subjacente (hypokeímenon) é a essência primordial e imutável diante da mudança das aparências.
Ao constatar sua necessidade vital para os homens, para os animais e as plantas; ao notar as transições entre os estados sólido, líquido e gasoso, o pensador estabelece que a substância primeira sustenta a pluralidade das formas. Por meio de observações, o pensador pode ter concluído que o calor provém da umidade, e todas as mudanças na natureza se dão em função da alteração dos estados da água. Outro aspecto que pode ter influenciado seu pensamento é a geografia marítima da Jônia, fortalecendo a percepção da essencialidade da água.
Tales descrevia a terra como um disco ou estrutura que flutuava sobre a água. Segundo a tradição aristotélica, o balanço desse oceano cósmico seria o causador dos terremotos e não mais a ação emotiva de Poseidon, senhor dos mares.
A filosofia de Tales fundamenta-se, portanto, na compreensão de um princípio único e físico como origem e fundamento da natureza. A água, dada sua fluidez, aliada à sua capacidade de transformação, representa o dinamismo da natureza (physis). O mundo não é estático, mas um fluxo do qual o homem participa, no qual as mudanças alteram apenas os atributos, mantendo-se a natureza essencial da arché. Portanto, o universo e o homem coexistem em harmonia, participando de um ciclo contínuo de transformações, em que a unidade da existência é preservada mesmo diante da pluralidade das formas – o problema filosófico conhecido como o Um e o Múltiplo.
Você acredita que, por trás da realidade aparente, há um princípio que sustenta todas as coisas?
By Ednaldo Teixeira
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