A Coragem de Não Agradar - Parte 2 de 5
Confira a análise do livro “A Coragem de Não Agradar”. Descubra por que fugir dos conflitos interpessoais sabota sua evolução.
Livro: A Coragem de Não Agradar
Autores: Ichiro Kishimi e Fumitake Koga
Editora/Lançamento: Sextante, 2018
Segunda Noite - Todos os problemas têm base nos relacionamentos interpessoais
Na perspectiva etiológica (focada nas causas), sentimentos como baixa autoestima e pessimismo são decorrentes da falta de resultados tangíveis que sirvam como âncora para a estabilidade emocional. Por essa ótica, propor metas exequíveis e cumpri-las constrói uma autoconfiança cada vez mais sólida.
Já na percepção da teleologia (com foco no propósito das ações), esses sentimentos são a máscara que esconde o medo de rejeição. A inação ou a fuga constituem a estratégia escolhida para se alcançar segurança quanto à mágoa nos relacionamentos interpessoais.
Por isso, Adler defende que “Todos os problemas têm base nos relacionamentos interpessoais”. É sabido que o ser humano é um ente essencialmente social que só se manifesta plenamente a partir de suas relações. Entretanto, é a partir delas que os conflitos também surgem.
Para Adler, quando nos comparamos com os outros, damos ensejo ao sentimento de inferioridade. Mas nós podemos reconstruir positivamente nossa autopercepção a partir de um novo olhar e descobrindo a finalidade de determinadas atitudes. Se a realidade está posta, que significado vamos lhe atribuir? Esse é um princípio que dialoga intimamente com o pensamento de Epicteto, filósofo estoico.
Uma ressalva: acredito que, por questões didáticas, o livro foi sucinto ao afirmar que a decisão de atribuir novos significados aos eventos é suficiente para alterar o estado mental de um indivíduo. Essa concepção pode entregar a falsa sensação de um poder que, em muitos casos, não se sustenta diante da realidade. O que a Psicologia Individual propõe é que, a partir desse novo olhar, o indivíduo se sinta encorajado a reconhecer seus limites (e superá-los) e desenvolver suas potencialidades.
Kishimi e Koga apresentam a distinção crucial entre “sentimento de inferioridade” e “complexo de inferioridade”. O sentimento é natural e saudável, podendo servir de mola propulsora para a transformação pretendida. Por sua vez, o complexo utiliza esse sentimento como barreira para o esforço necessário, criando uma relação de “causa e efeito aparente”. Desse modo, o indivíduo sempre busca uma suposta causa para explicar o estado negativo em que se encontra.
O complexo de inferioridade, quando não compensado positivamente por atos de coragem, evolui para o complexo de superioridade. Seus principais comportamentos incluem mentira, ostentação ou até a vanglória do próprio infortúnio para manipular os outros e preservar uma autoimagem idealizada.
A verdadeira superioridade, portanto, dá-se não pela competição com as pessoas, mas pela evolução do próprio eu. A competitividade pressupõe vitória e derrota, além de causar toda espécie de sentimentos de inferioridade, fazendo com que o indivíduo passe a enxergar o mundo como um ambiente hostil e as pessoas como prováveis inimigas.
Outro conceito importante na psicologia de Adler propõe as Tarefas da Vida, divididas em três níveis de relações interpessoais:
Tarefa do trabalho: relações funcionais e de cooperação, expressas pela divisão do trabalho para a sobrevivência social;
Tarefa da amizade: relações mais profundas, construídas pela empatia e pelo interesse genuíno;
Tarefa do amor: relações fundamentadas na intimidade e igualdade, englobando tanto o amor romântico quanto o de pais e filhos.
Quando fugimos das tarefas da vida, alegando que o culpado por nosso fracasso é o amigo, o parceiro ou o ambiente, praticamos a Mentira da Vida. Trata-se de um mecanismo de fuga para justificar a paralisia por conta do medo do fracasso ou da rejeição.
Você sente que sua vida é uma competição com os outros ou percebe evolução independente em si mesmo?
By Ednaldo Teixeira
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