Capítulo Um - O Duplo Movimento da Individuação
Tornar-se quem somos exige reconhecer aquilo com que nos identificamos, diferenciar-nos dessas influências e integrar as partes que compõem nossa personalidade.
O “princípio de individuação” de Jung tem, em essência, dois objetivos: lançar luz sobre a escuridão da vida psicológica e integrar as várias polaridades e tensões que nela existem. Ele se dá em dois movimentos principais (forças alquímicas simultâneas): o Movimento Analítico (separatio) e o Movimento Sintético (coniunctio).
O Movimento Analítico (separatio)
Tem como objetivo orientar o ego a conscientizar-se e diferenciar-se das realidades que o circundam e assim alcançar uma correta compreensão de seu estado atual. Essa desidentificação ocorre em relação a papéis sociais, modelos culturais, valores, objetos religiosos, pessoas, além de figuras arquetípicas e conteúdos inconscientes com os quais o ego se identificou. Na alquimia, separatio está frequentemente associada a espadas e facas.
O “pleroma” é um estado de plenitude ou vazio primordial. Ele contém todas as qualidades psicológicas possíveis, no entanto, nele tudo ainda é indistinto. As qualidades opostas (bem e mal, amor e ódio) se fundem e se anulam em um infinito de possibilidades. O processo de individuação marca o início da diferenciação dessas qualidades para formar uma personalidade própria.
A “persona” atua como uma espécie de máscara social que apresentamos ao mundo, como instrumento de adaptação à realidade circundante. Ela é necessária à vida coletiva, mas torna-se problemática quando o ego assume uma identificação excessiva com os papéis sociais que desempenha e os confunde com sua própria individualidade.
A “participation mystique” serve para propósitos imediatos de adaptação social, mas arranca as raízes individuais do tempo e do espaço, lançando a pessoa na “sociedade dos lunáticos” – uma existência marcada por identificações inconscientes. Nesse estado de indiferenciação psíquica e de proximidade inconsciente entre sujeito e objeto, o indivíduo se identifica de tal modo com uma ideia, pessoa ou arquétipo que se convence, por exemplo, de que é um profeta, um sábio, um herói cultural, um grande pai ou grande mãe.
O Movimento Sintético (coniunctio)
Processo que busca o significado e o propósito dos sintomas psíquicos e dos símbolos. Possui orientação prospectiva, visando ao desenvolvimento do potencial do indivíduo.
A “liminaridade” se refere a um período de incertezas e crises das identidades fixas, uma espécie de território psíquico neutro. Momento em que conteúdos psíquicos atravessam o limiar da consciência, sem que uma nova realidade tenha se consolidado. Por seu intermédio, ocorre a constatação e o reconhecimento das limitações do caráter e dos próprios defeitos, como também admiração diante das características favoráveis que se manifestam.
A “linha da vida” atua como orientação prospectiva do inconsciente. Em termos gerais, na primeira metade da vida, nosso foco está no mundo exterior, como construção do ego e da persona (carreira, família e sociedade). Na segunda metade da vida, à medida que nos tornamos mais conscientes e autorreflexivos, procuramos padrões no mundo e em nós mesmos para chegar a certo grau de orientação, a fim de que uma nova individualidade possa emergir.
A “função transcendente” surge da relação entre conteúdos conscientes e inconscientes, constituindo uma terceira configuração a partir da tensão entre esses dois pólos. Por seu intermédio, alcançamos novas percepções do mundo. Essa nova estrutura psíquica pode representar a individualidade em sua plenitude, seus altos e baixos, do espiritual até ao instintivo, incluindo alma, espírito e corpo.
A principal ferramenta da função transcendente é a “imaginação ativa” que atua na integração dos opostos para alcançar a totalidade da psique. Consiste no esvaziamento da mente, permitindo o surgimento de uma imagem ou sentimento. Então, o indivíduo estabelece uma relação consciente com esse conteúdo, que ganhará forma por meio de diálogos, desenhos ou escrita e, posteriormente, será conscientemente confrontado.
O grande desafio da Individuação é induzir o ego a abandonar a necessidade de controle absoluto e a confiar no fluxo de um processo de vida governado por algo exterior a ele mesmo. Nesse sentido, o movimento analítico promove a diferenciação do ego e suas identificações, possibilitando novas compreensões dessas realidades. O movimento sintético, por sua vez, parte dessas novas perspectivas para integrá-las à personalidade, fundamentando a “emergência do Self”.
Os papéis que você desempenha no mundo hoje são escolhas conscientes ou apenas máscaras necessárias que assumiram o controle da sua própria identidade?
By Ednaldo Teixeira
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