A Coragem de Não Agradar - Parte 3 de 5
Confira a análise do terceiro capítulo de “A Coragem de Não Agradar”. Aprenda a focar no que realmente é sua responsabilidade e viva com muito mais leveza.
Livro: A Coragem de Não Agradar
Autores: Ichiro Kishimi e Fumitake Koga
Editora/Lançamento: Sextante, 2018
Terceira Noite - Descarte as tarefas das pessoas
A necessidade de reconhecimento prejudica a autenticidade de nossas escolhas. O medo de ser julgado faz com que o valor pessoal e a autoconfiança sejam condicionados à opinião dos outros. Essa carência prejudica a autopercepção do indivíduo e o induz a agir estrategicamente para interferir no julgamento alheio, tentando conquistá-lo.
Na esfera do comportamento, adotar boas atitudes apenas sob vigilância externa é transferir a responsabilidade que deve ser assumida pelo próprio indivíduo. Isso pode dar a falsa ideia de isenção, mas, no fim, não resulta em uma existência satisfatória. O desenvolvimento humano deve ser uma busca autoguiada, fruto de uma decisão autônoma e jamais o resultado da vigilância e coerção de quem quer que seja.
À primeira vista, a ideia de ser detestado soa estranha, pois temos o desejo comum de buscar o amor das pessoas. No entanto, assumir o risco de não ter o apreço de todos é exercer genuinamente a liberdade. A nossa tarefa fundamental é viver a vida que escolhemos; a maneira como alguém se sentirá a respeito disso não é responsabilidade nossa. Dito de outra forma: as escolhas que faço dizem respeito estritamente a mim; sobre o que os outros vão pensar, não tenho poder algum.
Atenção deve ser dada a esse aspecto: a liberdade deve ser acompanhada de boa dose de responsabilidade. Reconhecer os impactos das nossas ações na vida das pessoas é primordial para um comportamento ético e respeitoso. De outra forma poderemos assumir posturas egoístas e danosas aos relacionamentos que também se sustentam por meio dos afetos. A psicologia adleriana enfatiza que a liberdade humana se dá quando compreendida no contexto de colaboração que ele denomina “sentimento de comunidade”.
Outro conceito fundamental na psicologia adleriana é a separação de tarefas. Trata-se da maneira mais eficiente de estabelecer responsabilidades individuais e evitar sobrecargas emocionais. A separação de tarefas contradiz o senso comum à medida que promove autonomia e funciona como a porta de entrada para relacionamentos saudáveis. A premissa básica é que não haja interferência nas tarefas alheias. Para isso, é necessário controle de expectativas e permitir que o outro assuma as próprias tarefas.
Embora se perceba a atenção dada à essência do conceito, podemos citar certos limites práticos. Em contextos profissionais, a divisão de tarefas pode não garantir eficiência produtiva. Nesses cenários, são necessárias supervisão e interferências pontuais na execução alheia, assegurando o sucesso do projeto e respeito às normas organizacionais. Mas ainda assim, há espaço para decisões subjetivas. Ademais, pessoas com quadro de depressão profunda demandam cuidados alheios como higiene, alimentação e segurança até que haja condições emocionais razoáveis de sobrevivência.
Há relacionamentos extremamente difíceis. Entretanto, essa complexidade muitas vezes é usada como desculpa para a estagnação escondendo um sentimento de vingança. Um exemplo clássico é o que Adler denomina “mentira de vida”: Não tenho reconhecimento dos meus pais, então não vou estudar! E assim, o medo do fracasso está devidamente justificado.
A dinâmica da sujeição é quebrada quando assumimos o protagonismo nas relações e implementamos mudanças em nós mesmos. O outro pode ou não mudar também, mas isso é decisão exclusiva dele. O grande aprendizado aqui é que nosso primeiro relacionamento é conosco mesmos; só assim sairemos da servidão das expectativas alheias.
Se você parasse de se importar com o julgamento das pessoas hoje, o que mudaria nas suas escolhas amanhã?
By Ednaldo Teixeira
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